Em uma semana, reuni assunto para uns três ou mais posts para contar a vocês. Como sou brasileira e tipicamente procrastinadora, além de ter passado por momentos de real falta de tempo, escrevo tudo de uma vez. Mesmo assim, continuo achando que deveria abrir o notebook de cinco em cinco minutos para não me esquecer de na-da. Ficam aqui, então, as impressões.
Primeiro, o inferno.
A última semana foi, assim por se dizer, infernal. O colegiado da adorável Faculdade de Letras fez o favor de me deixar completamente desesperada em vésperas de viajar. Disseram que eu não tinha ainda os 50% do curso completos - o pré-requisito babaca do DRI (Departamento de Relações Internacionais) para fazer intercâmbio. Ok. Mexendo nos documentos, encontraram uma disciplina cuja nota ainda não havia sido lançada e incluíram no meu extrato. 48%. "Moça, e agora?" e ela me perguntou se eu tinha algum certificado de participação em eventos. Procurei, achei alguns e, depois de alguma tensão, problema resolvido.
Depois disso, houve a vingança do tempo, que castigou a minha procrastinação. Não havia 24 horas que fossem suficientes! Lembrancinhas do Brasil para os gringos, arrumar mala, resolver problemas no banco, entrega de documentos finais, celular dando problema, cirurgia no dente... Essas coisinhas imprevistas que sempre são favorecidas pela lei de Murphy. Além disso, havia os preparativos para a festa de despedida, que só aconteceu graças ao meu namorado.
O limbo
Passado o inferno, o limbo. Não sabia se ria ou se chorava, se ia ou se ficava, se grudava em todo mundo ou se tentava o desapego pra ir me acostumando. Grudei em todo mundo, como boa canceriana que sou, e chorei bastante. Mas vim. Antes de vir, tentei sugar cada segundo livre da semana para me despedir dos meus amigos, da família e do namorado. Já tentei me convencer de que não há motivo para tristeza e que são só seis meses, mas meu sentimentalismo cria uns fantasmas que não se explica... Vai entender.
Enfim, sexta-feira, a despedida. Depois de ligar para 70 pessoas, metade delas apareceu no que foi A FESTA para mim. Só não chorei porque bebi umas tequilas e fiquei bem ocupada na cozinha, preparando quitutes mexicanos. Muita guacamole, fajitos, cheddar, tacos e cocada ao rum, música boa e pessoas queridas. Tudo isso me distraiu o suficiente pra me esquecer que só faltavam dois dias e eu nem tinha começado a arrumar a mala.
O aeroporto foi o momento de maior tensão, acho. Era real demais. Mamãe, papai, Anjinho, vovó, Carvalho, Tai, Farinha, Alexandre, Marina e Clara foram me levar. Depois de muitas filas erradas e algumas horas de espera, chegou a hora de ir para a sala de embarque, com aquele vidro preto, onde já não é possível ver ninguém que está do lado de fora. Eu não queria entrar e aí chorei. Golpe baixo.
O avião é metade limbo, metade paraíso. Grande supresa, não? Tive medo do voo até o Rio, mas me esqueci da banheirona quando entrei no voo internacional. É tão tão grande, tem musiquinha ambiente e uma televisão pequenininha! Fiquei distraída, tirei uns poucos cochilos. Cheguei em Frankfurt com uma hora de atraso e completamente moída. Não conseguia carregar minha própria mala nem tirar a mala de mão do bagageiro do avião. Malditos compartimentos feitos para pessoas altas! Hunf.
Enfim, o paraíso.
O paraíso começou no avião mesmo (nunca pensei em usar as palavras "avião" e "paraíso" na mesma frase, se não fosse pra falar de morte), depois de ter aceitado que só reveria os meus amores no ano que vem. Comi uma comidinha beeem mais ou menos, assisti
The new adventures of old Christine, Two and a half men e The big bang theory, adormeci ouvindo Chico Buarque e acordei definitivamente lá pelas seis da manhã. Resolvi ver um filme.
Temple Grandin. Conhecem? É a história real de uma cientista autista dos anos 60, bem bonito. Fiquei toda emocionada, boboca e inspirada por ela, que procurava ver portas em todo lugar para se abrir para um novo mundo. Ela dizia algo como: "esta é a minha porta. Do outro lado há um mundo inteiro". Nada além do que eu precisava ouvir para abrir os olhos para o que estava bem ali, me aguardando ao sair do avião. Achei o máximo, também, quando olhei no mapa do avião e eu sobrevoava as Ilhas Canárias e, depois, a França. Passei pelo Rio Sena e só vi nuvens, mas ok. C'est la vie! Quando o comandante avisou que faltavam 15 minutos para chegar em Frankfurt, achei que ia enfartar. Sério. Meu peito doeu muito. Aí eu lembrei que eu podia ter esquecido de respirar. Usei minhas aulas de Pilates, respirei direito e melhorei.
No aeroporto de Frankfurt, que todo mundo me avisou ser confuso, correu tudo perfeitamente. Há placas para todo lado e eu não errei nenhuma vez o caminho que devia seguir. Na fila da Imigração, meu coração acelerou bastante, mesmo eu estando com a documentação certinha. O policial me perguntou o que eu tinha ido fazer, deu uma olhada na carta de aceite da universidade e pronto! Carimbou meu até então virgem passaporte e liberou minha porta para o novo mundo. Não consegui tirar a bagagem da esteira sozinha e pedi ajuda pra um cara que estava por perto. Ele riu e disse que a mala era maior que eu, o que é QUASE verdade. Na saída, estavam Charly e Gabi, casal de amigos do meu pai, com uma plaquinha de boas-vindas e uma rosa - já murcha - me esperando, com uma câmera a postos e sorrisos enormes.
No caminho do aeroporto para minha casa provisória, em Wemmetsweiler, vi muitos campos de energia eólica e alguns vinhedos. Vi também a maior base militar dos EUA na Europa. O que tenho a dizer é que o que falam sobre as estradas alemãs é a mais pura verdade. Tudo lisinho e os carros flutuam, correndo a imperceptíveis 180km/h. A paisagem é bem verde, agora no verão. A temperatura beirava os 25ºC e chovia quando cheguei. E eu não estava morrendo de saudade de chuva? Foi uma bela recepção! :)
(Tenho a impressão de que este post está ficando gigante e de que ninguém vai ler até o final...)
Enfim, o primeiro dia na Alemanha. Dia 23 de agosto de 2010. Fui super bem recebida, ganhei um quarto lindo e grande por uma semana, que é pra eu me despedir do conforto e da vida em família. A casa é toda bem decorada, cheia de flores e livros. A cidade é bem pacata e pequena, as casinhas parecem de boneca e há florestas por toda parte. E o melhor de tudo é que elas são seguras para caminhada e o risco de encontrar um maluco que vá te raptar no caminho é quase nulo.
Ontem cheguei já na hora do lanche/jantar. Pães de todas as formas, queijos holandeses e franceses, salmão cru e... leite. Eu quase não acreditei que tinha me servido de leite com chocolate quando vi o salmão na mesa. Combinação bizarra, mas comi assim mesmo. Outra coisa que tenho achado estranha é ir ao banheiro, colocar água da pia no copo e... beber. É tudo potável! Depois de comer, fui me deitar às onze. Ainda eram 6 da tarde no Brasil! Quando apaguei as luzes, me vi em um lugar estranho, sozinha, e senti medo. Fiquei pensando nos meus pais e no Carvalho até conseguir dormir. Acho que ainda levo um tempo pra me acostumar com a ausência deles.
Hoje de manhã, comi mais pães maravilhosos e, no almoço, teve purê de BATATA, espinafre e ovo frito. Até que, tirando o salmão com leite, a comida é parecida, né? Pelo menos por enquanto. Depois do almoço fui a uma cidade vizinha chamada Illingen pra comprar um chip de celular. Daqui a três horas terei um número alemão (e duvido que alguém vá me ligar). Amanhã devo sair com o Christian, filho do Charly e da Gabi, e a namorada dele, que estuda francês na Universität des Saarlandes. Eles vão me levar em Saarbrücken e em algum barzinho.
Bom, acho que chega por hoje. As perspectivas são boas! Mandem notícias... Saudades de vocês já!